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Reflexões
 

Fé soterrada e fé desenterrada

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Diante de tragédias, sempre surge a pergunta: “por quê?”. Por que essas coisas acontecem? Por que Deus permite isso? Anselm Grün, ao tratar das várias formas de sofrimento em seu livro O que fiz para merecer isso?, nos ensina que a pergunta que mais ajuda nessas horas não é “por quê?”, mas “para quê?”. No caso específico do Haiti, atingido violentamente por terremotos no dia 12 de janeiro passado, surge a pergunta: para quê?

Depois de passar um bom tempo debatendo com Deus em sua consciência, sobre as causas do seu sofrimento, Jó disse: “Eis que falei levianamente: que poderei responder-te? Porei a minha mão sobre a boca... Reconheço que tudo podes e que nenhum dos teus desígnios fica frustrado. Sou aquele que denegriu teus desígnios com palavras sem sentido. Falei de coisas que não entendia...” (Jó 40,4; 42,2-3).
Diante de tragédias como a do Haiti, parece que atitude mais segura é a de Jó: colocar a mão sobre a boca, silenciar e ficar um tempo com a pergunta “para quê?” em nosso coração. Para quê essa tragédia? Talvez para que os homens se lembrem do Haiti, o país mais pobre do mundo. Talvez para que as pessoas se lembrem de que no Haiti havia 400 mil crianças órfãs antes do terremoto; quantas mais ficaram órfãs depois dele? Talvez esse terremoto tenha ocorrido para nos lembrar de que os nossos deuses modernos – a ciência e a tecnologia – não podem nos garantir uma vida totalmente segura e sem sofrimento; de fato, a grande pergunta veiculada nos meios de comunicação é essa: como fazer com que a ciência e a tecnologia possam prever terremotos e possibilitar ações que causem menos danos, antes deles ocorrerem?
 Um terremoto não soterra somente pessoas; ele também soterra a fé no coração de muita gente. Ao mesmo tempo, nas reportagens dessa tragédia, várias vezes ouvimos a palavra “milagre”. Ela foi pronunciada quando foram encontradas vivas duas crianças depois de sete dias soterradas; um homem de 34 anos, com vida, depois de 14 dias debaixo dos escombros; uma jovem de 17 anos, também viva, depois de 16 dias debaixo dos escombros. Um mesmo acontecimento pode soterrar a fé no coração de alguns e desenterrá-la no coração de outros....

Um tipo de morte que glorifica a Deus

No final do evangelho de São João, Jesus menciona como Pedro morrerá, e o evangelista comenta: “(Jesus) disse isso para indicar com que espécie de morte Pedro daria glória a Deus” (Jo 21,19). Enquanto a maioria das pessoas vê a morte como uma desgraça, Jesus diz que a morte, muitas vezes, é o coroamento de uma vida: a pessoa morre como viveu – fazendo o bem aos outros. Assim foi a morte de Zilda Arns, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança no Brasil. No momento em que aconteceu o terremoto, Zilda estava numa igreja do Haiti, falando com alguns padres e com muitas mães e líderes da Pastoral da Criança daquele país. A igreja desabou com o terremoto. Com ela, além de muitas outras pessoas, morreram 40 seminaristas e 16 padres.
A morte de Zilda também foi uma morte que glorificou a Deus. Ela morreu fazendo o que sempre fez em vida: ajudando pessoas a viverem com um mínimo de dignidade. Como Zilda, muitas outras pessoas morreram no Haiti: até o final de janeiro, o governo haitiano contabilizava 175 mil mortos, calculando que talvez o número chegue a 200 mil. 
Para algumas pessoas, 200 mil mortos no Haiti são 200 mil pobres a menos no mundo. Há pessoas que pensam assim, inclusive entre nós... Talvez a perspectiva fosse diferente se elas conseguissem enxergar os outros para além da cor da pele ou da condição social; se tivessem algum parente no Haiti; se, por infortúnio, algum filho delas estivesse debaixo dos escombros... O terremoto no Haiti pode nos tornar mais humildes, lembrando que o chão sobre o qual construímos nossa vida não é inabalável como pensamos que seja: qualquer um de nós pode ser soterrado de uma hora para outra por uma doença, por um acidente, por uma crise financeira ou conjugal, por um filho que se desencaminha na vida, pela perda de alguém muito querido...
Oremos pelo Haiti, pela humanidade e por nós mesmos, lembrando de que “Deus é nosso refúgio e nossa força, um socorro sempre alerta nos perigos. E por isso não tememos se a terra vacila, se as montanhas se abalam no seio do mar, se as águas do mar estrondam e fervem, e com sua fúria estremecem os montes. O Senhor dos Exércitos está conosco, nossa fortaleza é o Deus de Jacó!” (Sl 46,2-4). 

 

Romaria dos Migrantes 2009

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